Pai e Mãe, o que eu faço agora? [Carta de um Leitor]

Tempo de leitura: 13 minutos

 

Amo vocês e tenho grande admiração pela força de vida de ambos e pelos exemplos que recebi em relação a caminhar para a Vida e vencer os obstáculos. Apesar de tudo que recebi de vocês, o problema que eu tenho agora, eu não consigo encontrar uma solução. Estou em um grande dilema.

Aprendi com vocês a amar a família, respeitar os pais, cuidar dos filhos. Vocês passaram por inúmeras dificuldades e desafios e me mostraram como superá-los. A força do amor da família sempre esteve presente. Sentia a segurança em saber que meus pais fariam o melhor que podiam por mim. Fui incentivado a crescer e evoluir em todos os campos por vocês. Meu sucesso hoje tem como alicerce tudo que vocês me deram como referenciais de vida.

Sei que são seres humanos comuns com muitas qualidades e defeitos. Não os vejo como deuses. Por isso eu os admiro ainda mais. Impulsionaram todos os filhos a serem fortes e potentes. Autorizaram todos a terem uma vida melhor que aquela que vocês tiveram. E vocês conseguiram.

Com esse amor e gratidão no coração, pude ajuda-los em várias situações difíceis que passaram e passam, principalmente em relação às doenças que a idade nos dá. O fato de ser médico abriu muitas portas para a rapidez e qualidade dos atendimentos e procedimentos necessários. Minha casa e minha família atual sempre estiveram abertas para acolhê-los em retribuição ao que recebi na minha evolução de vida. O que pudemos fazer para aliviar suas dores e buscar tratamento adequado foi feito. Como filho, eu também sofri com as várias e sérias doenças e problemas que passaram. Como adulto e profissional foi muito bom contribuir para o alívio dos seus sofrimentos.

Vocês sempre foram um bom referencial quando eu passava pelos meus desafios e problemas. Seus princípios e ensinamentos foram fundamentais para o ser humano que sou hoje. Reverencio e agradeço tudo que vocês me passaram e o que representaram na minha vida.

Mas eu não sei o que fazer agora diante um grave problema que minha filha compartilhou comigo. Há vários anos eu sinto que há algo estranho com ela. Sinto um amor profundo e faço o que posso para que ela encontre um caminho saudável para a Vida. Eu me orgulho de suas conquistas e da pessoa maravilhosa que ela é, mas tem algo oculto que a atrapalha em suas decisões e nas relações que estabelece com seus parceiros de vida e até com sua autoestima.

Eu acreditava que isso era fruto dos conflitos que passou na infância com a separação dos pais. Eu e a minha esposa mudamos radicalmente a forma de olhar para o futuro, para a família e para os objetivos de vida. É óbvio que essa quebra na relação dos pais causa problemas nos filhos. Sou consciente disso e carrego essa dor no meu coração. Assim como seria horrível permanecer em um relacionamento doentio por causa dos filhos. Preferi carregar essa responsabilidade a colocar nos filhos o peso e a culpa da minha infelicidade.

Hoje a minha filha tem 26 anos e meu amor e admiração por ela só crescem. Mas havia algo errado. Sabia que tinha mais algum problema oculto. Imaginei muitas possibilidades, mas não conseguia pegar o problema. Em fevereiro deste ano, ela entrou em contato comigo para que eu a ajudasse a encontrar um rumo melhor nas escolhas profissionais dela. Senti que havia um pedido de ajuda maior do que esse que ela citava. Como sempre senti em vários outros momentos do passado quando ela me procurava.

Estava disposto a saber o que realmente havia por trás desse e dos vários outros pedidos. Para isso eu pedi que viesse sozinha desta vez. Sempre havia a presença de outras pessoas no passado. Eu queria um encontro apenas entre nós dois. E isso aconteceu. Em março ela pegou seu carro e viajou por três horas para chegar aqui. Ela, minha esposa e eu tivemos um jantar delicioso.

A presença dela sempre faz bem ao meu coração e à minha alma. Olhava para ela e lembrava a menininha que corria pela casa com seus cabelos encaracolados espalhando alegria. Seus abraços e beijos afetuosos. A felicidade de ficar brincando comigo na praça que ficava em frente à sua escola. Os pedidos de fazer pão de queijo e sorvete em casa. A participação dela nessa preparação e esperar ficar pronto para poder comer. Muitas e muitas lembranças boas dessa infância. A cada uma que revivia, eu voltava àquela época e sentia o prazer de ser pai e ajudar aquela menina a crescer cercada de amor e segurança até se tornar uma mulher adulta e seguir seu destino.

Mas não eram apenas as lembranças boas que apareciam. A decisão da separação e as consequências foram extremamente fortes. As dores em seus olhos, no seu rosto e no seu corpo gritavam na minha alma. Cada encontro e cada despedida após eu me mudar para outra cidade eram uma mistura de felicidade e dor. Precisava me reerguer pessoalmente e profissionalmente. Precisava dar condições emocionais e financeiras para que meus filhos pudessem ter um futuro melhor. Nesse processo eu contei com a força e a presença de vocês, meus pais.

No período de férias do começo e do meio do ano eu sabia que ela seria acolhida por vocês e poderia estar em contato com tios e primos que ela tanto amava. Isso ajudava a manter o vínculo amoroso com nossa família. Isso me dava muita segurança, pois sabia que estaria com pessoas que a amavam e que poderiam passar a ela os bons referenciais que recebi na minha vida.

Viajava por quatro horas para pegar ela e o irmão na cidade que moravam. Depois mais cinco horas para chegar à casa de vocês na praia. Apesar de cansativo, era maravilhoso poder estar com meus filhos, meus pais, meus irmãos e sobrinhos. A família dava um conforto e amor a todos nós. Os problemas familiares naturalmente existiam, mas a força da família era muito maior.

Quanta coisa havia ocorrido até hoje! Voltando para o encontro com ela, compartilhamos e atualizamos nossas vidas e fomos dormir. No dia seguinte eu falaria a sós com ela.

Após o café da manhã, começamos a falar sobre os problemas que a afligiam. Conforme ela falava, era nítido que havia uma dor profunda nos seus olhos e no seu corpo. Falava e dava segurança no meu amor por ela. Após uma hora e meia para encontrar seus objetivos, os obstáculos e as possíveis soluções, uma emoção muito forte começou a aparecer. Chegara o momento que aguardava, sabia que o verdadeiro problema apareceria. Seria o momento em que realmente eu poderia ajuda-la. Fortaleci meu amor incondicional a ela e que via que algo estava doendo demais dentro dela e que ela pudesse contar comigo.

Estava preparado a ouvir tudo, mas foi pior que imaginei. Ela chorava angustiada e dizia que tinha muito medo em falar. Tinha medo da minha reação e do que poderia acontecer comigo. Disse que não aguentava mais guardar essa dor dentro dela e que estava pronta para falar comigo no ano passado. Mas ela não conseguiu, pois eu tive o infarto em junho e ela ficou com medo que eu poderia piorar. Disse que imaginava o que aconteceria com ela se tivesse falado antes e eu enfartasse. Ela não daria conta da culpa por ter causado isso. Ela estava com medo que eu pudesse enfartar de novo.

Sua dor aumentava na mesma proporção do seu medo. Eu não sabia o que era, mas sabia o que precisava fazer. Quanto mais ela ficava apavorada, mais seguro eu ficava. Minha imaginação criava dezenas de tragédias, mas sabia que deveria ficar com ela. Ao mesmo tempo em que eu sabia que estouraria uma bomba, eu sabia também que isso seria fundamental para tornar a alma da minha filha mais leve e saudável.

Era um dos momentos sagrados da vida. Precisava buscar meu lado adulto e meu lado pai. Busquei essa força em tudo que aprendi com vocês, nos meus professores de psicoterapia e nos vários terapeutas que me ajudaram muito a enfrentar as tragédias da vida.

Quando a segurança que pude oferecer foi maior que a dor e o medo que ela carregava, a história foi revelada. Ela não fazia parte nem das hipóteses mais improváveis que eu imaginei. Com manifestações de medo, vergonha e culpa ela relatou que foi abusada. Imediatamente senti uma raiva enorme que se agravou quando ela disse que foi dos 5 aos 11 anos. Então não tinha sido um episódio isolado. Meu desejo imediato era de arrebentar esse abusador. O abuso até fazia parte das possibilidades, mas, quando revelou o autor dessa atrocidade, aí senti algo indescritível. Muitas emoções surgiram de todos os cantos da minha alma. Eu precisava ficar centrado e dar suporte à minha filha. Isso era o mais importante e foi o que fiz. Essa era a prioridade do momento. Mas ao ouvir que o autor era você, meu querido pai, implodiu algo em mim.

Dei todo o suporte para minha filha, sua neta, e disse que sentia muito por não tê-la protegido. Congelei minhas emoções e me dediquei a ficar com ela e ajuda-la. Estimular a esvaziar tantas emoções horríveis e mostrar que não seria julgada, nem culpada por mim. Que culpa tem uma criança de 5 anos de idade que ama seu avô e tem confiança nele? Tudo começa com brincadeiras e excitação infantil e, à medida que evolui sua consciência, descobre que há algo errado em tudo isso. Como sair e o que fazer com essa perversa experiência a que foi submetida pelo adulto que ama?

Perguntei como isso ocorria. Ela disse que o avô avisava a avó que iria com a neta para um cômodo que ficava em cima da laje da casa. Lá havia várias revistas pornográficas escondidas.

Prefiro não relatar o resto, isso me faz muito mal. Assim como saber que você, mãe, também não a protegeu. Será que nem sequer cogitou essa hipótese? Não é estranha a ocorrência desse fato repetidas vezes? Quando eu estava por lá isso não acontecia. Ela descreveu que ficava com muita raiva de mim quando eu a deixava aí, na casa de vocês, e voltava para trabalhar.

Aos onze anos ela dizia que não queria ir mais para a praia, pois preferia ficar com os amigos, mas era apenas uma desculpa. Tinha medo que sua prima mais nova também pudesse passar pela mesma situação. Eu e ela esperamos que não.

Desde essa época ela desenvolveu vários problemas emocionais e sexuais que tentava esconder. O abuso sempre deixa graves consequências. Meu compromisso atual é dar o suporte necessário para que consiga se tratar desse trauma infantil

Há meses estou com esse dilema sobre o que fazer com tudo isso. Olhar para vocês, meus pais, se tornou uma mistura de sentimentos ambivalentes. Por um lado tenho um amor profundo a vocês. Por outro lado eu me sinto traído por vocês. A minha dor e revolta contra tudo isso gera desejos de nunca mais vê-los e tirar vocês da minha vida.

Tudo isso me traz decepção, frustração e culpa. A raiva direcionada para vocês me dá culpa em relação a tudo de bom que vocês me deram. Não fazer nada e fingir que tudo passou também me dá culpa. Para isso eu não posso valorizar e cuidar adequadamente das sequelas do abuso. Para não prejudicar a minha relação com vocês, deixo a minha filha pagar o preço do abuso. Isso eu nunca farei. Também carrego minha culpa por não ter nem desconfiado. Aliás, a culpa maior que eu tenho é de saber o quanto a minha filha ocultou seus problemas de seus pais. Eu e a mãe dela não passamos segurança adequada para que ela confiasse em nós.

Queridos pais, continuo amando vocês e, ao mesmo tempo, tenho raiva do que ocorreu. Meu coração está muito dividido. Não dá para continuar nossa relação da mesma forma que antes.

Quero manter todas as coisas boas que recebi de vocês no meu coração. Farei isso e agradeço profundamente tudo que fizeram por mim. O que eu sou hoje veio da força do amor de vocês. Por isso, guardarei para sempre o amor saudável que me deram.

Para poder conservar esse amor, precisarei manter distância de vocês. Tenho receio do que pode acontecer se me aproximar de vocês. Isso me fará muito mal. Não me cabe julgar nada. Não tenho e nem quero ter esse papel. Sei do amor que vocês têm pelos filhos e pelos netos. Isso nunca será questionado por mim. Mas não posso fazer de conta que nada aconteceu.

Precisarei ficar mais distante de vocês. Tenho certeza que entenderão e peço que respeitem minha decisão. Posso auxiliar em relação aos problemas médicos que tiverem, mas tenho que ficar distante. Espero que recebam isso com amor e que vocês encontrem nos seus corações uma forma de transformarem esse problema em aprendizagem e sabedoria. É o que eu farei.

Lembro-me de dois princípios budistas que uso como princípios de vida. O primeiro é: “A vida é dolorosa, não se questiona isso”. O segundo é: “Como ser feliz nesse mundo”.

Vou encerrar deixando uma sugestão para vocês fazerem para a neta: escrevam para ela dizendo que sentem muito pelo que aconteceu e que a responsabilidade de tudo foi de vocês. Apenas reconheçam e não peçam desculpas nem perdão. Autorizem-na a seguir para a vida e deixar no passado os problemas ocorridos. Tenho certeza que isso ajudará muito.

Mais uma vez eu os agradeço.

 

 

 

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